Saturday, April 22, 2006

A máquina

Mais uns minutos de sexo industrial. Sexo industrial dá jeito. É como se de uma linha de montagem se tratasse.

Começa por tocar ali. Volta, meia volta, gira, toca. Mais a baixo. Mexe. Lambe. E já está.

Agora ela.

Sexo industrial pela manhã, sexo industrial à hora marcada, orgasmo quando toca a campaínha.

Fábrica de químicos.

Fábrica de fluidos.

Fábrica de desejos satisfeitos.

Tudo está previsto no computador que manobra as mãos, as pernas e as línguas. Uma tecla que se pressiona e começa a manufactura.

Mas não sabe a caseiro. Não sabe.

Friday, April 21, 2006

BSO

Mexe e remexe a cabeça para tentar encontrar uma forma de voltar a falar-lhe. Tem pretexto, não tem o número de telefone.

Senta-se e levanta-se, fuma mais um cigarro, lembra-se daquela noite em que lhe cantou ao ouvido numa paragem de autocarro no Cais do Sodré.

«Ah, és tu! Pelo apelido não estava a ver mas reconheci a voz rouca.»

As pausas sucederam-se na conversa, como se quisessem dizer mais alguma coisa que não podiam, que não calhava bem, que foram trocando nos olhares naquele outro dia em que se encontraram num sítio insólito.

«Estás bem? Há quanto tempo...»
«Estou e tu? Há quanto tempo...»

Olha-lhe a boca e tenta lembrar-se do sabor. Espreita-lhe as mãos que agarram o copo mas esqueceu-se do toque.

Ele ri de cada vez que a encontra no meio da multidão. Ri como se se encostasse o ombro ao dela, numa paragem de autocarro, às duas da manhã, no Cais do Sodré.

E ela ri de volta como se cantasse para ele.

Thursday, April 20, 2006

Estava indecisa...

O corpo que já não produzia uma única gota de suor, o estômago que não se apertava, o coração que passara a bater compassado, fosse do tempo sempre igual ou do comprimido que todas as manhãs engolia encostada ao frigorífico.

Telepizza, canalizadores, uma fotografia, desenhos do miúdo, uma conta atrasada por pagar. A garrafa de água ficou arrumada, ajeitou um dos ímanes e saiu porta fora, esquecendo-se já do beijo de despedida, mas voltando atrás para cumprir a obrigação.

Os lábios que já se conhecem, como se de uma cara se tratassem. Os repetidos adeus, até logo, bom trabalho. A porta fecha-se. Como todos os dias.

Como ao final do dia se irá abrir e ela fechará os olhos quando ouvir o som da chave a rodar. Já dorme. E sonha com outro presente.

Primeiro

Que já não se sentia. Que a vida tinha dado tantas voltas e reviravoltas que já nem as pernas lhe eram, ou os olhos a viam. Como se no espelho perguntasse quem és tu agora?

Talvez uma ilusão.